Caminhada meditativa – uma prática muito útil, acessível a todos.

Faz anos que trabalho em casa, anos. Mais de dez com certeza. Sempre tive um espaço para um escritório em casa para meu trabalho como designer e nos últimos anos passei a atender alunos individuais de yoga. As aulas em grupo sempre foram no Gandiva (uma tradicional escola de yoga aqui em Curitiba) e eram os momentos em que eu saia para trabalhar fora de casa por poucos horários na semana.

Recentemente alugamos uma sala perto de casa para que eu pudesse ir a pé ou de bicicleta, sem a necessidade de usar o carro. Nos primeiros dias aproveitei para conhecer melhor a região. Observar as casas (na região onde moro não tem prédios) e a forma como são construídas e decoradas, observar as lojas, os vendedores e o fluxo da região – coisas que não se percebe de dentro do carro.

Depois passei a observar os detalhes das construções, as plantas nas calçadas, a conversar com os vendedores das lojas e por fim a me sentir mais pertencente a essa realidade que somente os que caminham conhecem.

Fazia anos que eu não caminhava. Trabalhando em casa, saia pouco e quando saia era de bicicleta ou carro. De bicicleta se tem uma relação diferente com a cidade da que se tem de dentro do carro mas é a pé que a magia acontece.

Quando andamos, saímos. O fato de simplesmente sair por um porta caminhar e chegar a outra sem a necessidade de nenhum veículo, sem nem mesmo precisar pedalar, sem ligar ou ativar nada, muda nossa relação com a sensação de deslocamento. No carro ou na bicicleta precisamos coordenar uma porção de atividades enquanto nos deslocamos: mudar de marcha, acelerar, pedalar, frear, virar a cabeça para os lados o tempo todo, sinalizar com os braços…

Para andar a gente anda. As pernas se movimentam e o quadril coordena, mas do umbigo para cima há uma certa imobilidade. A velocidade com que nos deslocamos requer que movimentemos pouco a cabeça, os braços podem ficar parados com as mãos nos bolsos de um casaco e temos uma baixa exigência dos sentidos para percepção imediata do mundo ao redor, como requerem o carro e a bicicleta. Ou seja, precisamos envolver muito pouco a atenção da mente no processo de deslocamento.

 

Caminhar libera a mente.

Em nossas atividades do cotidiano passamos todo o tempo ocupados. Acordamos planejando (ou lamentando) as atividades do dia. Estamos sempre ocupados com trabalho, estudo ou criação dos filhos e quando nos envolvemos com outra atividade de lazer e descanso, na maioria das vezes envolve mais atividade da mente a partir de um estímulo externo. Partindo desse ponto é que recomendo a caminhada como forma de reflexão.

Caminhar requer pouca atenção da mente às informações ao redor (claro, não falo de quando caminhamos em uma região onde precisamos ficar atentos se seremos assaltados ou atropelados). O ritmo do caminhar mantém a porção mais externa da mente, levemente envolvida com o corpo ocupada com o ritmo do caminhar, evitando que se envolva muito com outras atividades e a atividade física leve e constante mantém a respiração ativa e aprofundada, além do ritmo superficial de quando estamos parados em frente ao computador, ou muito intensa como quando praticamos uma atividade física. Tudo isso gera condições ideias para que se possa começar uma prática de reflexão sobre a vida.

Os momentos da caminhada podem ser usados para que tenhamos tempo para refletir e digerir emoções e acontecimentos do momento de vida em que estamos. Podemos usar esses momentos para simular diálogos que teremos com outras pessoas, planejar ações e refletir sobre suas possíveis consequências, pensar melhor sobre atitudes tomadas ou futuras, sobre situações que nos causaram desagrado ou outras situações que nos atraem demais e sabemos que poderão se transformar em problemas no futuro.

Porque considero o momento da caminhada ideal para isso? Quando caminhamos de um ponto a outro, esse trajeto precisa ser feito pois queremos chegar ao nosso destino, o que nos impede de nos envolver com outras atividades que podem sequestrar nossa atenção como pode acontecer se nos propomos a essa reflexão em casa, no trabalho ou em outros momentos da vida ordinária. Evita também a sensação de torpor mental que nos acomete quando não estamos muito acostumados ainda com práticas mais formais de meditação. E, a respiração envolvida na caminhada e o esforço físico moderado nos ajudam a relaxar um pouco a tensão mental e a digerir nossos conteúdo internos com mais facilidade, proporcionando uma suave higiene mental.

 

Vamos lá, pernas à obra.

Para sua caminhada meditativa, você precisará estabelecer qual será o objeto de sua reflexão antes de começar a caminhada. Não precisa ser nada muito complexo. Pode ser algo que te disseram no trabalho e você não gostou, ou pensar no planejamento de algum objetivo que você deseja alcançar a curto prazo, como consertar algo em casa no final de semana. Pode ser ainda algo relacionado a conflitos familiares ou desejos não realizados. É importante que você comece com coisas simples do cotidiano e que lhe são bastante familiares. Tendo isso claro, comece sua caminhada. Pense no seu objeto de meditação, observe com quais outros pensamentos ele se conecta. Surge alguma emoção envolvida? Qual? Essa emoção já se manifestou em outras situações? Seu objetivo de meditação se envolve com outras pessoas? Como se relaciona com elas? Investigue em forma de conversa mental com você mesmo enquanto caminha. Até falar baixinho, meio em tom de murmúrio, pode ajudar. Algumas pessoas processam melhor seus conflitos falando sozinhas.

Enquanto caminha, não se preocupe tanto em encontrar uma solução para sua meditação ou em chegar a um objetivo final, concentre-se mais em observar, analisar e compreender um pouco mais seu objeto de meditação. Algumas pessoas assistem um filme tentando a todo o tempo adivinhar seu final e não se divertem com seu desenrolar.

Seu objeto de meditação pode ser o mesmo por várias caminhadas onde a cada vez você aumenta um pouco mais a investigação sobre ele.

 

Tenho sugestões de como você pode desenvolver sua caminhada meditativa.

 

Sugestão 1 – Trajeto para o trabalho ou faculdade

Se você vai para o trabalho ou faculdade todos os dias, você tem a melhor oportunidade em mãos.

Procure estacionar o carro em algum local um pouco mais distante do que você está acostumado, ou descer uns dois pontos de ônibus antes. No trajeto, antes de parar o carro ou descer do ônibus, vá procurando estabelecer qual será o objeto de reflexão.

 

Sugestão 2 – A ida à padaria

Não tem tempo durante a semana? E se você começar a buscar pão sábado e domingo pela manhã a pé? Sempre tem uma padaria a poucas quadras de todas as casas.

 

Sugestão 3 – Um passeio sob o luar

Se você mora em uma região tranquila, talvez em um condomínio fechado, você pode fazer pequenas caminhadas a noite quando voltar do trabalho. Quinze minutos certamente não farão diferença dentro da sua rotina em casa. A louça pode esperar mais 15 minutos na pia, e família pode até achar que você está no banheiro, nesse período. Quanto a você, 15 minutos de caminhadas reflexivas podem fazer uma diferença enorme.

 

Sugestão 4 – Digerindo o almoço, digerindo emoções

O intervalo de almoço no trabalho pode ser um momento excelente para isso. Ao invés de ficar no celular vendo facebook e instagram onde 15 minutos passam voando, que tal caminhar por 15 minutos? Você fará uma melhor digestão do alimento, sentirá menos sono a tarde e terá esse tempo importantíssimo para sua caminhada meditativa.

 

Sugestão 5 – A caminhada meditativa formal

Se você é um desses poucos sortudos que atualmente tem algum tempo livre ao longo do dia, separe 15 minutos para sua caminhada meditativa. Pode ser em um parque, na praia, no condomínio, na rua, no clube.

 

A grande dificuldade da mudança dos padrões

Muito provavelmente você enfrentará dificuldades na mudança de rotina que devem ser encaradas como pertencentes a caminhada reflexiva já de saída. Se você se propuser a isso é possível que você entende que é algo importante para você, então, faça isso de forma consciente, madura e justa com você. Se 15 minutos for muito tempo, comece com 5, se descer dois pontos antes de onibus for muito distante, desça um, se deixar o carro mais longe for muito difícil, deixe no mesmo lugar mas dê uma volta a pé na quadra. Pense de forma estratégica e encontre um meio. Comece de forma simples e acessível e vá aumentando aos poucos, não comece com grandes metas ou você terá mais chances de desistir.

Muitos dos nossos conflitos, ansiedades, preocupações e medos podem ser grandemente reduzidos somente inserindo a caminhada na rotina diária. Faça um teste por um mês e depois me diga como foi.

 

por Ricardo Prates
Professor de Yoga

 

2018-02-14T12:53:25+00:00 4 de setembro de 2017|Categories: Meditação, Saúde, Yoga|Tags: , , |1 Comment

One Comment

  1. ines 8 de novembro de 2017 at 01:09 - Reply

    Amei. Adoro caminhar

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